A eleição da atenção: quando a indiferença pode custar votos

Por Maju Cotrim

Em uma campanha cada vez mais tecnológica, acelerada e conectada, um dos maiores adversários dos candidatos pode não estar na chapa concorrente. Pode estar no silêncio, na demora, na mensagem visualizada e esquecida. A indiferença, real ou percebida, tem potencial para se tornar uma das grandes vilãs desta eleição.

Nunca foi tão fácil falar diretamente com um candidato. WhatsApp, chamadas de vídeo, áudios e redes sociais reduziram distâncias e criaram uma expectativa permanente de proximidade. Mas essa facilidade também aumentou a cobrança. Se antes um líder político aceitava esperar dias por um retorno, hoje acompanha os “azulzinhos” da mensagem lida, percebe o “bom dia” não respondido e registra o pedido que ficou sem qualquer feedback.

Pode parecer detalhe, mas não é.

Nos municípios, quem está ligado à política quer se sentir parte da caminhada. Não basta aparecer na fotografia do evento ou ser lembrado apenas quando a agenda passa pela cidade. Lideranças comunitárias, vereadores, ex-prefeitos, suplentes, representantes de segmentos e apoiadores esperam atenção constante. Querem, por vezes, uma ligação em vídeo, um áudio com tratamento pessoal ou uma conversa rápida que demonstre consideração.

Nesta campanha, o contato direto será tão importante quanto os grandes eventos, os programas eleitorais e a presença nas redes. Comunicação não será apenas publicar: será responder. Não será somente falar para milhares, mas saber escutar individualmente quem ajuda a construir uma base política.

É claro que nenhum candidato consegue atender pessoalmente a todas as mensagens. A campanha impõe uma rotina intensa e uma agenda praticamente impossível. Mas é justamente aí que entram a organização, a sensibilidade e a qualidade da equipe. O eleitor pode até compreender a falta de tempo; o que dificilmente aceita é a sensação de desprezo.

E existe uma diferença enorme entre demora e indiferença. A demora pode ser explicada. A indiferença fere, desgasta e afasta.

Um líder não atendido não guarda apenas uma mensagem sem resposta. Ele guarda a impressão de que perdeu importância. Um eleitor ignorado pode transformar frustração em silêncio isso na política, muitas vezes significa afastamento. Nem sempre haverá reclamação, cobrança pública ou rompimento declarado. Há quem simplesmente deixe de mobilizar, pare de defender e escolha outro caminho.

Por isso, esta tende a ser a eleição da atenção. Vencerá terreno quem compreender que tecnologia aproxima, mas também expõe ausências. Quem souber utilizar as ferramentas digitais para humanizar relações, reconhecer apoios e manter as bases conectadas terá maior capacidade de agregar.

No fim das contas, política continua sendo relação. E, em uma eleição disputada município por município, liderança por liderança e voto por voto, um áudio enviado na hora certa, uma ligação de poucos minutos ou até um “bom dia” respondido podem dizer muito.

Os candidatos precisarão cuidar dos grandes discursos, das alianças e das estratégias. Mas também dos pequenos gestos. Porque, nesta campanha, a falta de atenção pode fazer um estrago que nenhum marketing conseguirá reparar.