
Em duas edições realizadas nos dias 4 e 5 de junho, nas comunidades quilombolas Mumbuca e Prata, o projeto idealizado pela jornalista Maju Cotrim capacitou 65 mulheres em comunicação digital e já alcança mais de 130 quilombolas em todo o Tocantins.
O projeto Conexão Quilombola deu mais dois passos importantes na inclusão sociodigital de mulheres quilombolas ao realizar novas oficinas no Jalapão. No dia 4, a formação aconteceu na Comunidade Quilombola Mumbuca, reunindo 35 mulheres; no dia 5, foi a vez da Comunidade Quilombola do Prata, com a participação de 30 quilombolas, totalizando 65 mulheres formadas nesta etapa. Com esses encontros, o projeto já capacitou mais de 130 mulheres quilombolas a usar o celular e as redes sociais para contar suas histórias, fortalecer o artesanato, divulgar o turismo comunitário e defender seus direitos.
Do Jalapão para o mundo, com o celular na mão
Idealizado e realizado pela jornalista e editora-chefe da Gazeta do Cerrado, Maju Cotrim, filha de quilombola, o Conexão Quilombola é um projeto de formação que transforma o celular em ferramenta de autonomia, memória e geração de renda. As oficinas, ministradas por Maju e pela jornalista e comunicóloga Ana Maria Negreiros, trabalham desde noções básicas de uso do aparelho até estratégias de comunicação digital, sempre a partir da realidade de cada comunidade.
Nesta etapa, a equipe do Conexão percorreu cerca de 800 quilômetros para chegar ao Mumbuca e ao Prata, em uma viagem que, para as ministrantes, foi mais do que deslocamento: foi um reencontro com histórias de resistência e liderança feminina. Em roda, as participantes aprenderam a gravar vídeos, postar fotos, falar de si, do quilombo e dos produtos que produzem, entendendo que a internet pode ser aliada na luta por reconhecimento e titulação dos territórios.
Mumbuca: protagonismo, memória e lugar de fala
Na Comunidade Quilombola Mumbuca, berço do capim-dourado, o clima era de orgulho e afirmação. Presidente da associação da comunidade, Eloides resumiu o sentimento de muitas participantes ao se apresentar: “Olá a todos. Boa tarde. Sou Eloides, sou mãe, sou presidente da associação, represento o quilombo Mumbuca. Tenho orgulho de mim e é isso aí. E represento todas as mulheres, sou quilombola.”
A oficina reforçou a importância de que as próprias quilombolas contem suas histórias, em vez de serem apenas cenário para turistas e influenciadores. Uma das mensagens trabalhadas com o grupo foi a ideia de que nada sobre o Jalapão deve ser feito sem o povo do Jalapão. A frase “nada sobre nós sem nós” foi repetida em coro pelas participantes, junto com a lembrança de que o capim-dourado não existe sem as mãos das artesãs que o colhem e trançam.
Educadoras, artesãs, merendeiras, agentes comunitárias e jovens estudantes foram tomando a palavra para se apresentar, exercitando na prática o lugar de fala trabalhado pelo projeto. Márcia, que hoje atua como coordenadora do CRAS e articuladora do selo UNICEF no município, conectou sua trajetória às raízes quilombolas: contou que deixou o Jalapão para cursar técnico em enfermagem, trabalhou 16 anos na saúde, formou-se em pedagogia aos 40 anos e hoje se apresenta com orgulho como mulher negra e quilombola em qualquer espaço em que atua.
O encontro também foi espaço para reconhecer quem já luta há décadas pela permanência das comunidades em seus territórios. A professora Aldina, quilombola, ex-vice-prefeita e ex-secretária de Saúde e de Turismo de Mateiros, relembrou as batalhas contra os conflitos fundiários e pela autoidentificação quilombola. Entre risos e emoção, ela contou que sua biografia “dá para fazer um livro” e que ainda pretende escrever essa história, reforçando que a auto-organização das comunidades foi fundamental para que ninguém fosse retirado de suas terras.
Prata: orgulho de ser quilombola e viver do artesanato
Na Comunidade Quilombola do Prata, a oficina reuniu artesãs, lideranças comunitárias, jovens e mulheres que migraram de outros estados e hoje se reconhecem parte do quilombo. A roda de apresentações revelou uma trama de experiências, ofícios e sonhos que agora também passam pelas telas.
Luzia, artesã que faz “vários estilos de peça”, resumiu a forma como o Prata se comunica com o mundo: por onde passa, se apresenta como quilombola, com orgulho de falar tudo o que existe dentro da comunidade, sem esconder nada. Ela contou que as pessoas costumam perguntar como chegar ao quilombo para visitar e que sempre aproveita para explicar o caminho e narrar um pouco da história local, recorrendo às pessoas mais velhas quando precisa aprofundar a memória da comunidade.
Neuzilene, artesã há 15 anos no Prata, ligou o presente ao sonho da mãe, que vendia cocadas, mas sonhava ver as filhas vivendo do artesanato. Hoje, ela produz colares, pulseiras, bolsas e outras peças e diz que sua maior alegria é ver irmãs, sobrinhas e amigas “realizando o sonho da mãe” ao viverem do próprio trabalho com o capim-dourado e outros materiais tradicionais.
Para as jovens, o curso também significou enxergar a comunicação digital como oportunidade concreta. Gleiciele avaliou que a formação foi “muito boa para ensinar mais, trazer mais conhecimento” e que vai ser útil para “ajudar a crescer bastante” a comunidade. Roselaine fez questão de lembrar a força das mulheres do Prata ao se apresentar como filha de artesã e artesã também, afirmando o orgulho de quem carrega o nome do povoado para além de seus limites.
Comunicação que fortalece territórios e identidades
Em Mumbuca e no Prata, as oficinas partiram de uma mesma pergunta: como usar o celular para registrar a própria existência, defender o território e construir narrativas que não apaguem a presença quilombola? A resposta veio em forma de falas, fotos, vídeos e apresentações cheias de emoção.
Mabel, filha da comunidade que hoje atua na Rede Jalapão, contou que trabalha dando suporte a artesãs de diferentes localidades e se emocionou ao falar do impacto da comunicação. Para ela, houve um tempo em que era muito difícil ter voz e ser vista, mas esse cenário começou a mudar à medida que outras pessoas passaram a olhar com respeito para o trabalho das mulheres do Jalapão. Hoje, ela diz trabalhar “com o Jalapão para o mundo” e acredita que o curso vai fazer “total diferença” ao se somar ao que já vem sendo construído pelas próprias comunidades.
A fotógrafa Jéssica, maranhense que há cinco anos chama o Jalapão de casa, reforçou o poder das imagens para ampliar o alcance dessas histórias. Ela contou que, inicialmente, fotografava por passatempo, sem acreditar muito que alguém se interessaria por suas imagens. Com o tempo, percebeu a importância de registrar e compartilhar o cotidiano das mulheres e das comunidades, produziu um livro sobre mulheres em movimento e levou esse trabalho a outros estados, onde o público se impressiona com a riqueza cultural e histórica do Jalapão.
Emoção, ancestralidade e homenagens
Filha de quilombola, Maju Cotrim viveu dias de forte emoção ao retornar ao Jalapão não apenas como repórter, mas como formadora e parceira das mulheres que sustentam a vida nas comunidades. Ao longo das oficinas, ela recebeu abraços, palavras de agradecimento e homenagens organizadas pelas participantes, que reconheceram no Conexão Quilombola um gesto concreto de devolução para os territórios.
Artesãs, lideranças comunitárias e educadoras fizeram questão de afirmar em voz alta o orgulho que sentem da própria história e do vínculo com o projeto. “Sou quilombola, tenho orgulho, falo tudo que tem aqui dentro da comunidade, eu não escondo nada”, disse uma artesã ao se apresentar. Outra participante, presidente de associação, reforçou: “Tenho orgulho de mim e represento todas as mulheres, sou quilombola”, frase recebida com aplausos e gritos de incentivo.
Para Maju, que cresceu ouvindo relatos de luta e resistência de sua família, ser homenageada por essas mulheres tem um significado profundo. Ao final das oficinas, ela sintetizou o sentimento em uma fala que mistura gratidão e compromisso: “Quero continuar honrando a minha ancestralidade levando meu conhecimento e assim, fomentando o desenvolvimento dessas comunidades. Estar ao lado dessas mulheres, para mim, vai além de uma missão profissional, é um compromisso de vida para uma transformação.”
Ao se despedir das comunidades nesta etapa, Maju e Ana Maria reforçaram que o Conexão Quilombola nasce do mesmo lugar de onde veio a trajetória pessoal da idealizadora: a certeza de que informação, tecnologia e afeto podem caminhar juntos para mudar realidades. Na prática, isso significa seguir viajando centenas de quilômetros, ouvindo e formando mulheres que já são referência em seus territórios e que agora também começam a ocupar, com mais segurança, o espaço digital, garantindo que, na comunicação sobre o Jalapão, seja sempre assim: nada sobre nós sem nós.
