
Uma ligação de número privado, uma cobrança pelo voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o medo de não saber quem está por trás da intimidação. É essa a situação relatada à Gazeta pela ex-vereadora Marilene Rodrigues Ledux, mulher negra e quilombola da comunidade Açude, em Santa Rosa do Tocantins, na região sudeste do estado.
Com quatro mandatos na Câmara Municipal e 16 anos de atuação na vida pública, Marilene afirma que nunca havia enfrentado uma situação semelhante por causa de suas escolhas políticas. Agora, diz ter receio até mesmo de sair de casa para realizar atividades cotidianas.
O episódio ocorreu na terça-feira, 27, dois dias após o segundo turno das eleições presidenciais, quando Lula foi reeleito presidente da República.
Segundo Marilene, às 17h54 daquele dia, seu telefone tocou. A chamada vinha de um número privado. Ao atender, ela ouviu um homem questionando seu posicionamento político. “Marilene, você não tem vergonha na cara? Votou no Lula? Você sabe que Santa Rosa vive do agro?”, teria dito o interlocutor, conforme o relato da ex-parlamentar.
Ela conta que tentou identificar quem estava do outro lado da linha, mas a ligação foi encerrada antes que obtivesse uma resposta.
A identidade do homem não é conhecida. Também não há confirmação de que ele tenha ligação com produtores rurais ou representantes do agronegócio, embora essa suspeita tenha sido mencionada no relato encaminhado à reportagem.
“Estamos vivendo momentos de medo e insegurança”
Marilene afirma que o telefonema provocou preocupação em toda a família. Segundo ela, o receio não se limita à possibilidade de novas ligações, mas à incerteza sobre quem fez a abordagem e quais seriam suas intenções. “Fiquei profundamente abalada e apavorada. Meu esposo, meus filhos e meus netos também ficaram desesperados diante do ocorrido. Desde então, estamos vivendo momentos de medo e insegurança, com receio até mesmo de sair de casa para ir ao mercado ou de realizar nossas atividades do dia a dia”, relatou.
A ex-vereadora diz que a situação tem afetado seu estado emocional e alterado a rotina da família. “Tenho medo pela minha segurança e, principalmente, pela segurança da minha família. Todo esse episódio tem abalado meu psicológico”, afirmou.
O sentimento é especialmente difícil, segundo ela, por se tratar da cidade onde nasceu, cresceu e construiu sua trajetória pessoal e política. “Nasci, cresci e construí minha história nesta cidade. Nunca precisei sair daqui para construir minha vida e, hoje, vejo-me tomada pelo medo, sem saber quem é a pessoa que fez essa ligação, onde ela está ou até onde pode chegar essa intimidação”, declarou.
Ex-vereadora defende liberdade de escolha política
Marilene foi vereadora por quatro mandatos em Santa Rosa do Tocantins. Formada em Normal Superior, ela destaca que sua trajetória na política municipal sempre foi marcada pela convivência com pessoas de diferentes posicionamentos.
Segundo a ex-parlamentar, divergências eleitorais nunca foram motivo para transformar adversários políticos em inimigos pessoais. “Ao longo da minha trajetória, tive opositores, como é natural em uma democracia, mas nunca inimigos. Sempre procurei respeitar as pessoas, independentemente de suas escolhas, opiniões ou posições políticas”, disse.
Ela também fez questão de diferenciar a conduta atribuída ao autor da ligação de sua relação com o setor agropecuário do município. “Tenho também grande respeito pela família do agro, que veio para contribuir com o desenvolvimento do nosso município. Entretanto, respeitar um setor da sociedade não significa abrir mão da minha liberdade de escolha e do meu direito democrático de votar em quem considero melhor”, afirmou.
Para Marilene, a tentativa de constrangê-la por seu voto representa uma afronta ao direito de participação política. “Em pleno século XXI, alguém ainda acredita que pode impor a outra pessoa em quem ela deve votar? A democracia garante a cada cidadão o direito de escolher livremente seus representantes”, questionou.
“Meu voto é um direito”
Ao tornar o episódio público, a ex-vereadora afirma que pretende chamar atenção para o respeito às diferenças políticas, especialmente em municípios onde as relações pessoais, econômicas e eleitorais estão próximas. “Meu voto é um direito, não uma autorização para que alguém me intimide, me constranja ou tente me fazer sentir vergonha das minhas escolhas”, declarou.
Marilene também ressaltou que não pretende abrir mão de suas convicções, apesar do medo provocado pela ligação. “Minha posição é clara: respeito todas as pessoas, mas exijo que respeitem minha liberdade, minha história, minha família e meu direito de exercer plenamente a cidadania.”
A Constituição Federal assegura a liberdade de manifestação política e o sigilo do voto. Eventuais ameaças ou atos de intimidação podem ser apurados pelas autoridades, conforme as circunstâncias e as provas disponíveis.
Até o momento, não foram apresentadas à reportagem informações sobre o registro de boletim de ocorrência ou a abertura de investigação policial relacionada ao telefonema.
Marilene encerrou seu relato com um apelo pelo respeito às escolhas individuais. “Nenhuma divergência política justifica ameaças, intimidações ou tentativas de silenciar alguém. O voto é livre, a democracia deve ser respeitada e ninguém deve viver com medo por causa de sua escolha política.”
“Respeito é um direito de todos. Democracia não combina com intimidação!”, concluiu.