
Duas décadas depois do lançamento de uma obra considerada estratégica para integrar o Tocantins ao Maranhão e facilitar o escoamento da produção da região, o que existe sobre o Rio Santa Maria, conhecido como Rio Perdida, são pilares de concreto abandonados, ferragens expostas e uma sensação compartilhada de frustração entre moradores e motoristas.
A situação voltou ao centro das discussões após um vídeo gravado pelo autônomo Célio Lopes viralizar nas redes sociais. Nas imagens, ele mostra a estrutura inacabada a cerca de dois quilômetros da área urbana de Rio Sono e ironiza o nome do rio. “Perdida está essa ponte. Vinte anos parada”, comenta.
O registro reacendeu cobranças pela conclusão da BR-010, rodovia federal que deveria cruzar a região e encurtar distâncias entre municípios do leste tocantinense. Sem a ponte, o trajeto permanece interrompido e quem precisa seguir viagem é obrigado a utilizar rotas alternativas pela TO-245 e recorrer à travessia por balsa.

O cenário encontrado hoje impressiona pelo contraste entre a grandiosidade do projeto original e o abandono da estrutura. Cercados pela vegetação que avançou ao longo dos anos, os pilares são praticamente o único vestígio de uma obra anunciada como fundamental para o desenvolvimento regional.
A construção fazia parte de um projeto lançado em agosto de 2005 pelo Governo Federal em parceria com o Governo do Tocantins. À época, a proposta previa a implantação de 306 quilômetros da BR-010 entre Aparecida do Rio Negro e Goiatins, com investimento superior a R$ 215 milhões.
Somente o trecho que contemplava a ponte e a ligação até Rio Sono tinha orçamento estimado em mais de R$ 56 milhões. A previsão inicial era concluir os trabalhos até 2009. O prazo, porém, nunca foi cumprido.
Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), a obra acabou interrompida em decorrência de problemas administrativos identificados em auditorias realizadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). As irregularidades estavam relacionadas a um convênio firmado entre o órgão federal e o Governo do Estado, o que levou à paralisação dos serviços.
Enquanto a estrutura permaneceu parada, moradores passaram a organizar mobilizações para cobrar uma solução. Entre os movimentos criados está o Pró-BR-010, que defende a retomada das obras da rodovia e a conclusão da ponte.
De acordo com o DNIT, a retomada do empreendimento ainda depende da elaboração de um novo projeto de engenharia. O órgão informou que a licitação para contratação dos estudos já está em andamento. A abertura das propostas ocorreu em 15 de maio deste ano e o processo encontra-se na fase de análise e julgamento.
A nova etapa deverá incluir uma avaliação completa das condições do trecho e da própria estrutura abandonada. Somente após a conclusão desses estudos será possível definir se a ponte poderá ser aproveitada e quais serão os próximos passos para a execução da obra.
Enquanto isso, a ponte inacabada segue como um dos retratos mais emblemáticos de uma promessa que atravessou governos, consumiu anos de expectativa e ainda não conseguiu ligar as duas margens do Rio Perdida.