
Um cardume de tilápias encontrado no Córrego Neblina, em Araguaína, colocou equipes ambientais em campo para tentar impedir a reprodução e a dispersão dos peixes pelo sistema hídrico da cidade. Apesar de ser amplamente criada para consumo, a tilápia é uma espécie exótica e, quando chega ao ambiente natural, pode competir com peixes nativos e provocar desequilíbrios na fauna local.
A presença em grande quantidade chamou atenção depois que um morador gravou e publicou imagens dos peixes no córrego. Nesta semana, técnicos foram até o local e iniciaram uma operação de captura, com instalação de uma rede de contenção.
A prioridade são as matrizes em fase reprodutiva, justamente para tentar frear o aumento da população no Neblina. “Vamos coletar as matrizes que já estão em fase de postura, vamos retirá-las do leito do canal”, explicou o biólogo Aníbal de Souza, que acompanha a operação.
Segundo ele, a equipe trabalha com a avaliação de que os animais estejam fazendo o percurso do Lago Azul em direção ao Córrego Neblina, possivelmente em razão do período de reprodução.
De onde vieram as tilápias?
A origem dos peixes, porém, ainda está sendo investigada.
Uma das hipóteses levantadas é de que as tilápias tenham escapado de alguma piscicultura da região. A equipe pretende verificar criatórios próximos às nascentes e aos cursos d’água que atravessam Araguaína para tentar descobrir como a espécie chegou ao sistema.
O prefeito Wagner Rodrigues afirmou que inicialmente também era considerada a possibilidade de os peixes estarem descendo pelo Neblina em direção ao lago após o eventual rompimento de algum criatório durante as chuvas. “Nossos biólogos estão investigando de onde elas vieram. Uma possibilidade é que algum criatório tenha rompido durante as chuvas”, afirmou.
Com a avaliação em campo, os técnicos passaram a investigar o deslocamento dos animais e a possível ligação com o Lago Azul.
As tilápias retiradas do córrego terão como destino inicial um criatório.
Por que a tilápia preocupa?
Aníbal explica que a presença da espécie no Tocantins não é proibida e que a tilápia tem grande importância para a piscicultura. O problema aparece quando o peixe criado comercialmente alcança rios, córregos e lagos onde não ocorre naturalmente. “Nós sabemos muito bem que a tilápia não é uma espécie proibida no estado. Na verdade, hoje no Brasil é a carne de peixe mais produzida e mais consumida. Só que, quando está no meio natural, ela é tida como um peixe invasor”, explicou.
Sem controle, a reprodução pode aumentar a competição por alimento e espaço com espécies nativas, com possíveis reflexos sobre a biodiversidade. É justamente esse avanço que a operação tenta conter antes que a população se estabeleça ainda mais no sistema do Neblina e do Lago Azul.
O trabalho também deverá fornecer informações para o projeto Lago Vivo, que realiza ações voltadas à introdução de espécies nativas.
Apesar do alerta provocado pelas tilápias, Wagner destacou outro aspecto observado no córrego. Segundo o prefeito, a presença de peixes e aves indica uma mudança nas condições ambientais do Neblina após intervenções realizadas para retirar lançamentos de esgoto e canalizar trechos do curso d’água. “Hoje tem peixes e tem aves aqui no Córrego Neblina. Depois de todo o trabalho de canalização e retirada dos pontos de esgoto, isso mostra que a água está em boas condições”, afirmou.
Agora, além de retirar as tilápias já identificadas, os técnicos deverão tentar rastrear a origem do cardume. A intenção é descobrir como a espécie chegou ao córrego e reduzir o risco de novas ocorrências.