Vacinas contra chikungunya avançam no Brasil e ampliam opções de prevenção

A busca por vacinas capazes de ampliar a prevenção contra a chikungunya ganhou força no Brasil em 2026, com dois imunizantes avançando em etapas regulatórias e de produção. A doença, transmitida pela picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Aedes, foi confirmada no país em 2014 e vem registrando circulação em diferentes regiões.

Em junho, a farmacêutica Eurofarma apresentou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) um pedido de análise da vacina CHIKV VLP, já aprovada para pessoas a partir de 12 anos nos Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, Suíça e Canadá. O imunizante é aplicado em dose única e utiliza partículas semelhantes ao vírus da chikungunya, conhecidas como VLP.

Um mês antes, em maio, a Anvisa autorizou o Instituto Butantan, em São Paulo, a iniciar a produção da Butantan-CHIK. Desenvolvida em parceria com a farmacêutica franco-austríaca Valneva, a vacina utiliza vírus vivo atenuado e é destinada a pessoas de 18 a 59 anos com risco aumentado de exposição à doença.

Embora a chikungunya apresente baixa mortalidade, os sintomas podem ser incapacitantes. As dores articulares, em alguns casos, persistem por meses ou até anos e podem comprometer atividades profissionais e cotidianas. Para o infectologista Luís Fernando Aranha Camargo, do Einstein Hospital Israelita, esse impacto reforça a importância da vacinação como estratégia de saúde pública.

Em 2025, o Brasil registrou 129.123 casos prováveis de chikungunya, sendo 107.975 confirmados, além de 121 mortes, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Entre o fim daquele ano e o início de 2026, a entidade identificou aumento sustentado de casos em diferentes áreas das Américas e a retomada da transmissão local em regiões que estavam há anos sem circulação do vírus.

Atualmente, a vacinação contra a chikungunya no Brasil ocorre por meio de uma estratégia-piloto conduzida pelo Instituto Butantan, com apoio do Ministério da Saúde. A iniciativa busca avaliar o impacto da imunização em larga escala sobre a transmissão da doença e contempla municípios de Alagoas, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Sergipe e São Paulo. Até o momento, cerca de 48 mil doses foram aplicadas.

O Ministério da Saúde não informou se há previsão para a oferta regular da vacina no país. Segundo a pasta, a incorporação de novas tecnologias ao Sistema Único de Saúde (SUS) depende de avaliação favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que considera fatores como eficácia, segurança e custo-efetividade.

Diferenças entre as vacinas

A CHIKV VLP utiliza partículas que reproduzem a estrutura externa do vírus, mas não carregam seu material genético. Dessa forma, elas não infectam células nem se multiplicam no organismo, mas são reconhecidas pelo sistema imunológico, estimulando a produção de anticorpos.

Essa característica diferencia o imunizante da Butantan-CHIK e pode ampliar suas possibilidades de aplicação, principalmente entre grupos para os quais vacinas de vírus vivos exigem maior cautela.

“Temos um pouco de cuidado com a vacinação de indivíduos de 60 anos ou mais com vacinas de vírus vivos”, explica o pediatra infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Segundo ele, o comportamento do sistema imunológico em pessoas mais velhas pode representar um fator de atenção em algumas vacinas contra arboviroses.

A Butantan-CHIK tem o mesmo princípio ativo, composição e processo de fabricação da Ixchiq, considerada a primeira vacina contra a chikungunya registrada no mundo. Por isso, os dados de segurança e de resposta imunológica obtidos nos estudos da Ixchiq também são considerados na versão produzida no Brasil.

O imunizante, porém, passou por revisões de segurança em outros países após relatos de eventos adversos graves. Em maio de 2025, a Agência Europeia de Medicamentos restringiu temporariamente seu uso em pessoas com 65 anos ou mais. Dois meses depois, após a análise de 28 casos graves, a restrição foi retirada, mas novos alertas foram incluídos. A recomendação passou a ser de aplicação apenas quando houver risco significativo de infecção e após avaliação individual dos benefícios e riscos.

No Brasil, a Butantan-CHIK está autorizada para pessoas de 18 a 59 anos. O imunizante é contraindicado para gestantes e pessoas imunodeficientes ou imunossuprimidas.

Para o infectologista Julio Croda, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), a transferência de tecnologia para o Butantan representa um avanço para a autonomia brasileira na produção de vacinas.

Além de reduzir a dependência de doses importadas, a fabricação nacional pode ampliar a capacidade de resposta diante de novos surtos. “A chikungunya é um problema no Brasil, tem causado surtos e óbitos com frequência, e é importante ter essa capacidade de produção nacional para eventualmente vacinar a população”, afirma.

Pesquisas buscam novas alternativas

Além das vacinas que já chegaram a etapas regulatórias, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Bonn, na Alemanha, desenvolvem uma terceira estratégia. O projeto ainda está na fase pré-clínica e foi testado apenas em camundongos.

A equipe modificou geneticamente o vírus da chikungunya para impedir que ele complete seu processo de maturação. A alteração faz com que as partículas produzidas em laboratório consigam infectar uma célula apenas uma vez. Os vírus gerados a partir dela permanecem imaturos e não conseguem se espalhar pelo organismo.

Nos testes, todos os camundongos vacinados sobreviveram após serem expostos ao vírus selvagem, enquanto os animais do grupo de controle morreram em até três dias. A candidata também reduziu a quantidade de vírus no sangue e o inchaço nas patas.

Os pesquisadores ainda observaram que as partículas produzidas pela nova técnica estimularam uma quantidade de anticorpos aproximadamente nove vezes maior do que as partículas não tratadas.

Os resultados foram publicados na revista científica NPJ Vaccines, mas os pesquisadores ressaltam que os dados ainda não permitem determinar se a candidata é segura ou eficaz em seres humanos.

Mesmo com o avanço das vacinas, especialistas avaliam que o controle da chikungunya dependerá da combinação entre imunização e combate ao Aedes aegypti. A eliminação do mosquito também contribui para reduzir a transmissão de outras arboviroses, como a zika, e protege pessoas que não podem ser contempladas pelas atuais indicações dos imunizantes.