Fila de até 10 horas, crianças chorando e motoristas revoltados; travessia por balsa vira drama após interdição

A rotina de quem precisa cruzar o Rio Tocantins entre Pedro Afonso e Tupirama virou um teste de paciência e, para muitos moradores, também de resistência física. Desde a interdição da ponte da BR-235 pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), motoristas enfrentam filas quilométricas, madrugadas sem dormir e espera de até 10 horas para conseguir atravessar de balsa.

Os relatos enviados à Gazeta mostram um cenário de tensão, cansaço e indignação. Há casos de famílias que passaram a noite dentro do carro, trabalhadores que chegaram em casa ao amanhecer e crianças retornando viagem sem conseguir atravessar.

“Era umas oito da noite quando chegamos. Nós saímos de Palmas por volta das cinco da tarde. Ficamos com medo de pegar estrada de chão porque éramos quatro mulheres. Quando chegamos do lado de Tupirama, ainda não eram oito horas completas. Só fomos chegar em casa 15 para as seis da manhã”, contou uma moradora, que ainda precisou sair direto para o trabalho.

Outro motorista relatou que entrou na fila no início da noite e só conseguiu cruzar o rio no começo da manhã seguinte. “Cheguei no trevo de Tupirama às 19h40 e fui chegar aqui mais de quatro da manhã. É um descaso. Tem que colocar mais balsas ou separar caminhões e carros pequenos”, desabafou.

A principal reclamação é a prioridade dada a caminhões durante parte da madrugada. Segundo moradores, veículos menores ficaram horas parados enquanto carretas eram chamadas para embarcar.“Passamos a noite cochilando dentro do carro. E ainda tinha uma falta de respeito porque iam nos caminhões buscar para atravessar. Tinha criança chorando dentro dos carros. Um avô voltou com as netas para Tabocão às duas da manhã porque não conseguiu passar”, relatou outro morador.

Há também quem tenha desistido de esperar. Uma mulher contou que atravessou a pé pela ponte interditada enquanto as colegas permaneceram na fila com o veículo. “Ontem eu pedi para uns rapazes me deixarem na ponte. Atravessei andando. Minhas colegas ficaram com o carro e chegaram só às 5h45.”

Segundo moradores, o fluxo intenso de caminhões, carros, motos, bicicletas e pedestres transformou a travessia em um gargalo permanente desde o bloqueio da ponte. “Tem carro que fica mais de 12 horas para conseguir chegar. Nós passamos 10 horas exatas esperando”, contou um morador.

O que diz a ATR

Diante das reclamações, a Agência Tocantinense de Regulação, Controle e Fiscalização de Serviços Públicos (ATR) informou que a empresa Pipes Empreendimentos Ltda., autorizada temporariamente para operar a travessia, trabalha atualmente com duas balsas e estuda ampliar a estrutura.

Segundo a agência, a empresa avalia colocar uma embarcação de maior porte para atender carros e caminhões, além de uma balsa exclusiva para veículos que transportam combustíveis.

A ATR afirmou ainda que acompanha a operação e poderá aplicar penalidades caso haja descumprimento das regras previstas na autorização temporária.

A travessia emergencial foi implantada após a interdição total da ponte da BR-235, determinada pelo DNIT após inspeções técnicas apontarem risco estrutural na Ponte Leôncio Miranda, sobre o Rio Tocantins. Até o momento, não há previsão para liberação da estrutura.

Brener Nunes

Repórter

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins