
Há candidatos no Tocantins que ainda parecem acreditar que uma campanha eleitoral se resume a vídeos bem editados, frases de efeito, dancinhas, impulsionamento e uma sucessão de postagens cuidadosamente produzidas para as redes sociais. Não se resume.
A campanha também acontece fora das bolhas digitais. Acontece no contato direto com o eleitor, na capacidade de responder a questionamentos, na apresentação de propostas e, sobretudo, na relação madura e democrática com a imprensa.
Neste início de disputa eleitoral, já é possível perceber que algumas campanhas, principalmente majoritárias, insistem em ignorar o papel dos veículos de comunicação. Há candidaturas que mantêm uma relação distante, burocrática e, por vezes, até desconfortável com jornalistas. Algumas se incomodam com perguntas que escapam do roteiro. Outras adotam posturas que não condizem com quem pretende governar um Estado ou representar sua população.
É notável o vácuo de comunicação deixado por determinadas campanhas. Os veículos por vezes recebem, (quando recebem), releases pontuais, genéricos e excessivamente publicitários, que dizem pouco sobre o pensamento do candidato, suas decisões políticas, suas alianças, suas contradições e o projeto que pretende apresentar ao Tocantins. Isso quando uma declaração enviada pela manhã não é confrontada á tarde pelo personagem político.
Release não substitui relacionamento. Postagem não substitui informação. Engajamento não é sinônimo de credibilidade.
Uma campanha profissional precisa compreender que comunicação política vai muito além de alimentar perfis nas redes sociais. É necessário estabelecer uma relação permanente com a imprensa, fornecer informações de bastidores, contextualizar movimentos, construir narrativas consistentes e permitir que o candidato seja confrontado com os temas que realmente interessam à sociedade.
Isso não significa esperar elogios ou tratamento privilegiado. A imprensa não existe para ser puxa-saco de candidato, validar estratégias de marketing ou reproduzir propaganda como se fosse notícia. Jornalista não é integrante de comitê eleitoral. O papel da imprensa é perguntar mesmo , apurar, comparar versões, revelar contradições e oferecer ao eleitor elementos para que forme a própria opinião.
Candidatos que se irritam com perguntas difíceis precisam compreender uma verdade elementar: quem deseja ocupar um cargo público deve estar preparado para prestar contas publicamente. Se uma pergunta jornalística provoca desconforto durante a campanha, imagine o que acontecerá diante das pressões, cobranças e crises de um eventual mandato.
Também é um erro tratar veículos de comunicação apenas como canais convenientes para divulgar agendas positivas. Relacionamento com a imprensa não pode existir somente quando há uma inauguração, uma adesão política, uma pesquisa favorável ou uma imagem bonita para distribuir. Democracia pressupõe diálogo também diante das dúvidas, das críticas e dos assuntos incômodos.
As redes sociais são importantes, mas não bastam. Seus algoritmos entregam aos candidatos, muitas vezes, apenas o aplauso dos convertidos. A imprensa, ao contrário, amplia o debate, atravessa bolhas, registra os fatos, provoca respostas e ajuda a colocar diferentes projetos diante da sociedade.
Ignorar esse papel é mais do que uma falha de comunicação. É uma demonstração de pouca compreensão sobre o processo democrático e sobre a própria formação da opinião pública.
Ainda há tempo para que algumas campanhas revejam suas posturas. O Tocantins não precisa apenas de candidatos que saibam aparecer. Mas principalmente dos que saibam responder, dialogar e respeitar o trabalho de quem pergunta em nome da sociedade.
Campanha eleitoral não é uma vitrine de unanimidades fabricadas. É o momento do contraditório, da exposição pública e da prestação de contas. Quem deseja o voto precisa estar disposto a enfrentar tudo isso inclusive as perguntas que não gostaria de ouvir.
Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!
Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!