
Vinicius de Moraes e Baden Powell, em Samba da Bênção, cantarolaram uma daquelas verdades que parecem ter sido escritas para algumas histórias da nossa vida: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”
Talvez a vida seja mesmo feita disso: encontros que chegam sem avisar, pessoas que aparecem quando menos esperamos e, de repente, tornam-se parte daquilo que somos. Há encontros que duram minutos, outros permanecem por anos. E existem aqueles que, mesmo acontecendo em meio às nossas maiores dores, conseguem nos devolver a vontade de viver.
Foi assim, Francisco, que nós nos encontramos.
Não foi em uma festa, tampouco em um momento de celebração. A vida nos colocou frente a frente em tempos difíceis. Você carregava a dor e o silêncio do luto pela partida de seu pai, o nosso querido e saudoso Seu Boinha. Eu, por outro lado, atravessava um dos períodos mais difíceis da minha própria existência: um estágio de depressão severa, daqueles em que os dias parecem perder a cor e a vida vai ficando sem sentido.
E foi justamente quando nós dois estávamos, cada um à sua maneira, tentando juntar os pedaços da própria vida, que surgiu um encontro capaz de transformar um simples beco em um lugar de afeto.
Você olhou para aquele espaço próximo à sua casa e enxergou o que quase ninguém enxergava. Onde havia mato alto, lixo, sujeira e abandono, você imaginou flores. Onde havia um beco esquecido, imaginou um lugar de convivência. Onde havia desordem, viu a possibilidade de construir paz.
E começou.
Juntou seguidores, vizinhos, amigos e outros moradores de Palmas. Aos poucos, aquele pedaço de abandono foi ganhando vida. Plantas, cuidado, conversa, risadas, descanso. O que antes era apenas passagem tornou-se permanência. O beco deixou de ser um lugar qualquer e ganhou um nome que talvez seja a melhor definição daquilo que ali aconteceu: Beco da Amizade.
E foi ali que, sem perceber, você também começou a cuidar de mim.
Para mim, aquele lugar se transformou em uma espécie de divã terapêutico a céu aberto. Não havia psicólogo, sofá ou consultório. Havia plantas, terra, água, silêncio, conversas e gente. Havia a responsabilidade gostosa de chegar no final da tarde, ou nas manhãs de sábado e domingo, para molhar as plantas.
Pode parecer pouca coisa para quem olha de fora.
Mas não era.
Eu precisava daquele compromisso. Precisava sair de casa. Precisava cuidar de alguma coisa. Precisava sentir que ainda havia vida acontecendo — e que eu também fazia parte dela.
Enquanto eu molhava as plantas, talvez sem perceber, alguma coisa dentro de mim também começava a florescer.
E como todo lugar verdadeiramente vivo, o Beco ganhou seus personagens.
Entre eles, uma gatinha manhosa, dessas que chegam devagarinho e acabam tomando conta do coração de todo mundo. Batizamos de Mime, porque uma criança que frequenta aquele lugar maravilhoso assim a chama. E nós, naturalmente, adotamos o nome. Afinal, alguns nomes não são escolhidos: são simplesmente encontrados.
Hoje, Francisco, a vida novamente nos coloca diante de um desencontro.
Você volta para Balsas, para os braços da sua família, para um tempo de recolhimento, de descanso e, quem sabe, de reencontro consigo mesmo.
E talvez seja exatamente isso que precisamos fazer algumas vezes: desacelerar.
A vida nos cobra pressa demais. Queremos resolver tudo, compreender tudo, decidir tudo. Corremos tanto que, muitas vezes, esquecemos de perguntar para onde estamos correndo.
Por isso, vá.
Vá para Balsas.
Descanse.
Recolha-se.
Olhe para trás com carinho e sem culpa. Pense no que já fez, no que está fazendo e no que ainda deseja fazer. Ressignifique o que precisar ser ressignificado. Permita-se um tempo. Nem todo afastamento é abandono. Às vezes, afastar-se é uma maneira de voltar mais inteiro.
E eu quero que você saiba de uma coisa.
Hoje, eu não sou simplesmente um seguidor seu.
Sou seu amigo.
E talvez essa seja uma das maiores dádivas que a vida me deu.
Você foi um daqueles encontros que chegaram justamente quando eu mais precisava. Um ser de luz que encontrei nas andanças da vida em Palmas e que, sem saber, ajudou a escrever um dos capítulos mais importantes da minha história.
Por isso, costumo dizer que existem dois Cláudios.
Existe o Cláudio de antes de Francisco e do Beco da Amizade.
E existe o Cláudio depois de Francisco e do Beco da Amizade.
O primeiro estava perdido, cansado, atravessando seus próprios labirintos.
O segundo voltou a viver.
E eu digo isso com toda a força que existe dentro de mim: o Cláudio depressivo foi embora. E tomara que nunca mais volte.
O que ficou foi um homem cheio de vontade de viver. Um homem que voltou a enxergar beleza nas pequenas coisas. Que aprendeu que cuidar de uma planta pode ser também uma forma de cuidar da própria alma. Que descobriu que molhar flores pode significar, algumas vezes, regar a esperança.
Talvez essa seja a maior lição do nosso beco.
A gente não transforma apenas lugares.
Às vezes, transformamos pessoas.
Às vezes, somos transformados por elas.
E, quando isso acontece, não há outra palavra possível senão gratidão.
Francisco, sou profundamente grato à vida pela sua existência. Grato por você ter cruzado meus caminhos. Grato pelas conversas, pelas inquietações, pelas plantas, pelo beco, pela Mime e, sobretudo, pela amizade.
Desejo que Balsas lhe devolva o abraço que você precisa neste momento. Que sua família seja abrigo, colo e descanso. Que você consiga respirar mais devagar, ouvir mais o silêncio e reencontrar dentro de si aquilo que talvez a correria da vida tenha escondido.
Mas, se me permite um pedido, não demore demais.
O Beco da Amizade continuará aqui.
As plantas continuarão precisando de água.
Mime continuará, provavelmente, fazendo suas manhas.
E eu continuarei chegando por lá sempre que puder, especialmente no final das tardes e nas manhãs de sábado e domingo, com meu regador nas mãos e muitas lembranças no coração.
Esperando, quem sabe, o dia em que você voltará para Palmas.
E quando voltar, talvez descubramos que a vida, apesar de todos os seus desencontros, sabe muito bem o que está fazendo quando promove certos encontros.
Você me chama de amigo.
Eu lhe chamo de Francisco.
Aliás, sou talvez um dos poucos que não lhe chama de Nicó. Não é por falta de intimidade. É justamente o contrário. Acho Francisco um nome bonito demais para ser abreviado.
Então, fique com ele.
Francisco. Meu amigo.
E, sem medo de parecer exagerado, porque algumas amizades não cabem em palavras moderadas, termino esta crônica como quem entrega um abraço:
EU TE AMO, MEU AMIGO FRANCISCO.
Que a vida lhe seja leve.
E que os nossos encontros sejam sempre maiores que os nossos desencontros.
Cláudio Bento é pescador de ilusões.