
Maju Cotrim
Existe uma ilusão que se repete a cada eleição: a de que campanha serve para tornar um candidato conhecido.
Não serve!
Campanha serve para acelerar uma decisão que começou a ser construída muito antes.
A pesquisa Datafolha divulgada nesta semana ajuda a explicar por quê.
O levantamento mostrou que 68% dos brasileiros não conseguem citar o nome de um deputado federal em exercício. Quando a pergunta é sobre senadores, o índice sobe para 75%.
Mais impressionante ainda é outro dado: dois em cada três eleitores não lembram nem mesmo em quem votaram para deputado federal, deputado estadual ou senador na última eleição.
Ou seja, o problema não é apenas desconhecer alguns dos atuais parlamentares: É esquecer até a própria escolha.
Mas basta olhar outro número para perceber que a memória do eleitor não é fraca, é seletiva.
Quando perguntados sobre a eleição presidencial de 2022, 85% dos brasileiros lembram exatamente em quem votaram.
A diferença entre uma situação e outra não está na capacidade de lembrar.
Está na intensidade da presença, na comunicação e na construção permanente de uma marca política.
Esse talvez seja um dos principais recados para o Tocantins às vésperas de mais uma eleição.
Enquanto muitos pré-candidatos ainda acreditam que o momento é apenas de costurar alianças, disputar apoios internos e conversar com lideranças, existe outra disputa acontecendo silenciosamente.
A disputa pela memória do eleitor.
Ela acontece todos os dias nas redes sociais, nas entrevistas, nas agendas, na coerência entre discurso e prática e na capacidade de ocupar um espaço legítimo na vida das pessoas sem parecer artificial ou oportunista.
A maioria das campanhas proporcionais ainda insiste em um erro clássico: Passa meses discutindo política com políticos e deixa para conversar com o eleitor quando faltam poucas semanas para a votação.
Nesse momento, já é tarde.
Porque o eleitor não escolhe entre todos os candidatos e sim entre aqueles de quem consegue se lembrar.
E lembrança não nasce de santinho, de carreata, de impulsionamento de última hora, ela nasce da repetição consistente, da identidade, da clareza e da presença.
Os poucos parlamentares lembrados espontaneamente pelo eleitor brasileiro não chegaram ali por acaso: Construíram comunicação contínua, Criaram uma narrativa reconhecível e Ocuparam espaço na mente das pessoas antes de ocupar espaço na propaganda eleitoral.
Esse é um dos maiores desafios para quem pretende disputar uma vaga na Câmara Federal ou na Assembleia Legislativa do Tocantins.
Em uma eleição com centenas de candidatos, não basta ser preparado, trabalhar ou só ter boas propostas.
É preciso existir na memória do eleitor.
Porque competência sem lembrança produz invisibilidade.
E invisibilidade não conquista voto.
A política continua sendo feita por pessoas.
Mas as eleições são decididas pela atenção.
Quem entende isso chega à campanha precisando convencer menos.
Quem ignora essa realidade descobre, tarde demais, que seu maior adversário nunca esteve no partido concorrente: Sempre foi o esquecimento.
A grande lição que a pesquisa oferece ao Tocantins talvez seja exatamente essa: antes de disputar votos, é preciso disputar espaço na memória das pessoas.
Porque campanhas podem conquistar atenção por alguns meses.
Mas a lembrança é construída durante muito mais tempo.
E nenhuma estratégia eleitoral consegue recuperar, em poucas semanas, o tempo perdido ao longo de quatro anos.