CASACOR Tocantins celebra a arquitetura, os saberes e a identidade dos povos originários

A Praça dos Povos Indígenas nasceu da proposta de realizar uma CASACOR profundamente conectada ao Tocantins. Ao reunir arquitetura, design, arte e paisagismo, a mostra reconhece que não seria possível falar sobre novas formas de habitar sem ouvir os povos que vivem neste território há séculos e preservam conhecimentos fundamentais sobre construção, natureza e vida em comunidade.

Mais do que um espaço expositivo, a Praça foi concebida como um lugar de respeito, valorização e visibilidade. O ambiente apresenta as culturas indígenas como realidades vivas e contemporâneas, capazes de contribuir para os debates atuais sobre sustentabilidade, pertencimento, coletividade e futuro.

Para Joana Sampaio, uma das realizadoras da CASACOR Tocantins, a presença dos povos originários também reforça o compromisso da mostra com a identidade cultural do Estado.

“A CASACOR é uma grande plataforma de valorização de profissionais, artistas, artesãos, marcas e de toda a cadeia da economia criativa. No Tocantins, temos o compromisso de fazer uma mostra na qual o público reconheça o Estado em seus materiais, em sua arte, em seu artesanato, em suas comunidades tradicionais e em seus povos originários”, afirma.

Segundo Joana, os conhecimentos indígenas estão profundamente presentes na maneira brasileira de construir e habitar. O uso da madeira, da palha, das fibras e da terra, assim como a ventilação natural, a proteção contra o sol e a adaptação ao clima, demonstra que conceitos atualmente associados à arquitetura sustentável e bioclimática fazem parte dos saberes originários há muitas gerações.

“A Praça dos Povos Indígenas mostra que inovação e ancestralidade podem caminhar juntas. Para pensarmos uma arquitetura mais humana e sustentável, precisamos aprender com aqueles que sempre souberam construir em harmonia com a natureza”, destaca.

Quatro dimensões da vida

A experiência está organizada em quatro dimensões: a Morada, que abriga o corpo, a memória e a coletividade; os Rituais, que celebram as diferentes passagens da existência; a Alimentação, que conecta as pessoas à terra e aos ciclos naturais; e os Artefatos, por meio dos quais conhecimentos, histórias e identidades ganham forma.

Cada núcleo revela um modo próprio de compreender o tempo: o tempo de plantar e colher, de construir coletivamente, de cantar e celebrar, de preparar os materiais e de criar objetos que unem função, beleza, memória e pertencimento.

Na cultura dos povos originários, o ritmo da vida acompanha as estações, as chuvas, os rios e os ciclos da terra. A fibra precisa crescer, o barro espera o período adequado de secagem e a palha é trançada no ritmo preciso das mãos. Assim, cestarias, remos, bancos, adornos, instrumentos e objetos cerimoniais não são apenas peças decorativas, mas expressões de conhecimentos transmitidos entre gerações.

Os rituais também integram a estrutura social, espiritual e política das comunidades. Cantorias, danças, pinturas corporais, festas e homenagens aos antepassados reafirmam os vínculos entre as pessoas, o território e a ancestralidade. São momentos nos quais cada passagem da vida é compartilhada e reconhecida coletivamente.

A Morada como organismo vivo

Na exposição, a Morada ultrapassa a ideia de abrigo físico. A arquitetura tradicional é apresentada como um diálogo entre barro, madeira, palha, clima, território e comunidade.

As técnicas construtivas demonstram conhecimentos profundos sobre ventilação, umidade, incidência solar e conforto térmico. Em determinadas estruturas, a madeira Òwòrulyri, conhecida como sarã, recebe palha de babaçu fixada com cipós. Utilizado especialmente nas laterais das cozinhas e em ambientes que necessitam de circulação de ar, o sistema favorece a ventilação e pode substituir o adobe em locais com menor disponibilidade de barro.

O arquiteto Daniel Aricana, colaborador do projeto, ressalta que os materiais e métodos construtivos dos povos originários exerceram grande influência sobre a arquitetura brasileira.

“A escolha de materiais como madeira, palha, bambu, cipós, barro e fibras naturais era determinada pelo que o ambiente disponibilizava. Essa lógica fortaleceu a construção a partir do local, considerando fatores como chuva, sol, ventilação e umidade”, explica.

Povos que formam o Tocantins

A exposição valoriza as formas pelas quais os próprios povos se reconhecem: Inỹ, denominação que reúne Karajá, Javaé e I-Xybiowá; Mehin, como se reconhecem os Krahô; Akwẽ, autodenominação do povo Xerente; e Panhĩ, como se identificam os Apinajé.

O Tocantins também abriga povos como Krahô-Kanela, Kanela, Krahô-Takaywrá, Pankararu, Atikum, Apurinã, Tuxá, Guarani, Awá — também conhecidos como Avá-Canoeiro — e Fulni-ô. De acordo com o Censo Demográfico de 2022, a população indígena do Estado ultrapassa 20 mil pessoas.

Seus territórios constituem espaços de memória, resistência e continuidade cultural: a Kraolândia, coração do povo Mehin; a Ilha do Bananal e o Parque Nacional do Araguaia, referências para diferentes comunidades Inỹ; as Terras Indígenas Xerente e Funil, onde vivem os Akwẽ; e a Terra Indígena Xambioá, território dos Karajá Xambioá.

Para os Inỹ, a vida acompanha o fluxo dos rios Javaé e Berohokỹ, o Araguaia. Seus conhecimentos são expressos na pesca, na navegação, na cerâmica, na pintura corporal, na cestaria, na arte plumária e na produção das bonecas Ritxokò.

Entre os Mehin, a aldeia circular tem no pátio Ká o coração da comunidade. As casas são distribuídas ao redor desse núcleo e conectadas a ele por caminhos semelhantes aos raios solares. A organização social também acompanha as estações, representadas pelas metades Katam’jê, associada às chuvas, e Wakm’jê, relacionada ao período da seca.

Os Akwẽ organizam-se a partir das metades Doí, associada ao Sol, e Wahirê, ligada à Lua. Essas estruturas se desdobram em clãs e orientam relações, responsabilidades e formas de pertencimento, também comunicadas pelas pinturas corporais.

Já os Panhĩ preservam narrativas relacionadas ao Sol e à Lua, além de histórias como a do Menino Morcego. Em rituais como o Mẽ Õkrepôxrũnhti, cantos, danças e maracás celebram a vida e reafirmam a conexão da comunidade com a natureza.

Uma construção coletiva

A Praça também evidencia as histórias de resistência de povos que enfrentaram perseguições, deslocamentos forçados e perdas territoriais. Kanela, Krahô-Kanela, Awá, Pankararu, Atikum, Apurinã e outras comunidades desenvolvem iniciativas de fortalecimento cultural, retomada da língua, reconstrução de vínculos e defesa de seus territórios.

Um dos curadores da exposição e representante dos povos originários do Tocantins, Célio Torkan Kanela destaca o caráter coletivo e educativo do projeto:

“Cada detalhe deste ambiente revela o esforço coletivo de muitas mãos e corações que compreenderam a grandeza da missão assumida: apresentar, de forma lúdica, sensível e verdadeira, a história, a cultura, os saberes e a vida dos povos indígenas do Tocantins. Mais do que um espaço físico, foi construída uma ponte de conhecimento, respeito e valorização das raízes que sustentam a identidade do nosso Estado.”

O indigenista, jornalista e fotógrafo Marco Aurélio Jacob, responsável por textos e fotografias presentes na exposição, também ressalta a importância desse reconhecimento.

“Reverenciar os primeiros habitantes e verdadeiros pioneiros desta terra é uma grande honra. Eles têm muito a ensinar sobre o Tocantins, sobre os métodos construtivos com elementos do Cerrado, a alimentação e a riqueza cultural que cada povo oferece às identidades tocantinense e brasileira”, afirma.

Ao integrar arquitetura, memória, fotografia, artefatos e conhecimentos ancestrais, a Praça dos Povos Indígenas reafirma a potência criativa do Tocantins e amplia a compreensão sobre os povos que formam sua história.

O ambiente revela que o território não é apenas um espaço a ser ocupado, mas uma realidade viva, marcada por relações de respeito, pertencimento e memória. Uma experiência que aproxima ancestralidade e futuro e convida o público a reconhecer, nos saberes originários, caminhos para formas mais humanas, coletivas e sustentáveis de habitar.

Fotos: Marco Jacob