Polêmica em Brejinho: Vereadora denuncia ameaça durante fiscalização de máquinas públicas; secretário nega

Uma fiscalização sobre o uso de máquinas da Prefeitura de Brejinho de Nazaré terminou em boletim de ocorrência, acusações de ameaça e uma troca de versões entre a vereadora Samila Vilarinho e o secretário municipal Elisney Monteiro de Paiva, conhecido como Ney Paiva. A parlamentar afirma ter sido intimidada ao verificar a abertura de tanques em uma propriedade ligada ao secretário. Ele nega ter ameaçado Samila e sustenta que os serviços beneficiavam três familiares inscritos em um programa municipal.

O episódio ocorreu no Assentamento Boa Sorte, onde uma máquina pública trabalhava dentro da propriedade de Ney. Samila disse que foi ao local após receber uma denúncia e encontrou três cacimbas sendo abertas. A vereadora questiona quais critérios foram utilizados para selecionar os beneficiários e afirma que pequenos produtores do município têm cobrado o mesmo tipo de serviço. “Como que estão sendo esses benefícios? Está sendo através de ofício? Como está sendo esse cadastro para beneficiar esse pequeno agricultor?”, questionou.

O prefeito Murilo Morais também se manifestou e defendeu a regularidade do serviço. Segundo ele, existe um cronograma municipal para abertura de tanques destinados a pequenos e médios produtores e, apesar de a máquina estar na propriedade de Ney, os beneficiários seriam dois irmãos e um cunhado do secretário.

Vereadora diz ter ouvido referência a “bala”

Samila afirma que estava acompanhada da mãe quando foi abordada por Ney e que a conversa ganhou um tom intimidatório. Segundo a parlamentar, o secretário teria feito referência ao uso de arma de fogo e também mencionado o marido dela. “O Ney Paiva me disse que antigamente tinha que ser recebida até com bala. Ameaçou o meu marido dizendo que qualquer coisa ia meter bala”, relatou.

Após o episódio, a vereadora foi a Porto Nacional e registrou um boletim de ocorrência. Ela argumenta que estava exercendo a função fiscalizadora do mandato e afirma ter sido impedida de concluir o trabalho. “Todos vocês sabem que fiscalização é prerrogativa do vereador. E até mesmo o Ney Paiva sabe sobre isso”, disse.

Samila também relatou outro episódio ocorrido depois que voltou para casa. Segundo ela, um drone teria entrado na área de sua residência e feito imagens do imóvel. A vereadora relacionou o fato ao clima de intimidação que diz estar enfrentando, mas não apresentou, na declaração fornecida, elementos que identifiquem quem operava o equipamento. “Eu não posso fiscalizar porque, se eu fiscalizar, vou ser fiscalizada também dentro do meu lar?”, questionou.

Ney admite fala sobre tiro, mas nega ameaça à vereadora

Ney Paiva apresentou uma versão diferente do encontro. Ele classificou o relato de Samila como “distorcido” e “inverídico” e disse que pode apresentar testemunhas da conversa.

O secretário confirmou ter feito uma referência a tiro, mas sustenta que a frase não foi uma ameaça contra Samila ou o marido dela. Segundo sua versão, a declaração surgiu enquanto ele reclamava da entrada de pessoas em sua propriedade sem autorização. “Eu falei que invasão de propriedade é crime. E que a pessoa que costuma invadir a propriedade sem a permissão do dono, se fosse comigo em outros tempos, porque hoje eu sou evangélico, eu era capaz de dar um tiro nele dentro da propriedade. Se ele entrar sem autorização, é capaz da pessoa levar um tiro. Isso eu falei, não a ela”, afirmou.

Ney acusa o marido da vereadora e outras pessoas de terem entrado na propriedade no dia anterior para filmar o trabalho da máquina. Ele também afirma que a própria parlamentar entrou no imóvel no dia seguinte sem pedir autorização.

Samila, por outro lado, sustenta que estava no local para exercer a fiscalização parlamentar.

Secretário diz que três familiares eram beneficiários

Sobre o uso da máquina pública, Ney afirma que a Prefeitura abriu inscrições para um programa de construção de 100 tanques destinados a pequenos e médios produtores.

Segundo ele, os interessados fizeram solicitações e deveriam fornecer combustível, enquanto o município disponibilizaria a máquina e o operador.

Ney afirma que dois irmãos e um cunhado foram cadastrados e contemplados pelo programa. Os três tanques estavam sendo construídos dentro da propriedade dele porque, segundo o secretário, a área teria sido disponibilizada aos familiares para desenvolver a criação de peixes. “Na minha propriedade, a máquina ia realizar os serviços por nove horas, três horas para cada produtor”, explicou.

Ele acrescentou que a propriedade teria sido a oitava atendida pelo programa e disse possuir documentos e comprovantes relacionados às solicitações e ao combustível fornecido pelos beneficiários.

O secretário argumenta ainda que não comanda a pasta responsável pelo programa e afirma não haver impedimento para disponibilizar parte de sua propriedade aos familiares.

O prefeito Murilo Morais corroborou a versão de que os três serviços não foram concedidos diretamente ao secretário. “Apesar de ser na chácara do secretário Elisney, não era para ele, e sim para dois irmãos e o cunhado. O município tem o ofício deles protocolado solicitando a máquina para perfuração”, afirmou.

Murilo acrescentou que outros produtores da mesma região também receberam o serviço e disse que existe um cronograma para execução dos tanques.

O prefeito também afirmou que, pelas informações que recebeu, Samila teria entrado na propriedade sem autorização e começado a filmar. “Como sempre se fazendo de vítima”, declarou.

Uso da máquina e suposta ameaça viram centro da disputa

Samila sustenta que sua presença na propriedade tinha o objetivo de verificar como um equipamento público estava sendo utilizado e quais critérios determinavam a ordem dos produtores beneficiados. “Minha luta é por você, comunidade brejinhense. […] Está difícil trabalhar aqui como vereadora. Como mulher, pior ainda”, afirmou.

Já Ney diz que não tentou impedir fiscalização sobre o programa e que chegou a convidar a vereadora a procurar a Secretaria Municipal de Agricultura para consultar o cronograma e os documentos dos beneficiários.

As versões também divergem sobre o tom da discussão e sobre acontecimentos envolvendo o marido da parlamentar. Ney fez outras acusações contra ele e contra pessoas que teriam entrado na propriedade, que não foram comprovadas no material apresentado.

Com o registro do boletim de ocorrência por Samila, caberá às autoridades apurar se as declarações e circunstâncias do encontro configuram ameaça. Já os questionamentos sobre o uso da máquina pública envolvem verificar os cadastros, a ordem de atendimento e a documentação citada pela Prefeitura e pelo secretário.

Brener Nunes

Repórter

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins