Profissões da Indústria: formação técnica do SENAI impulsiona empreendedor a transformar demanda por manutenção em negócio em Araguaína

Equipamentos parados por até 15 dias à espera de manutenção. Foi diante dessa dificuldade, vivenciada na rotina de uma indústria em Araguaína, que Genesis Costa começou a enxergar uma oportunidade profissional que, anos depois, resultaria no próprio negócio. O caminho entre a identificação do problema e o empreendedorismo passou pelas salas de aula do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) Tocantins.

Formado pelo Centro de Educação e Tecnologia (CETEC) SENAI de Araguaína nos cursos técnicos em Eletrotécnica e Eletroeletrônica, Genesis é hoje empresário e está à frente da Genesis Ferramentas e Assistência Técnica, negócio criado para atender justamente uma demanda que ele conheceu de perto: a necessidade de serviços especializados para manutenção de ferramentas e equipamentos elétricos. 

A história é tema de mais uma edição da série Profissões da Indústria, que apresenta trajetórias construídas a partir da educação profissional e mostra as diferentes possibilidades de atuação abertas pela qualificação técnica.

Um problema da indústria virou oportunidade

A aproximação de Genesis com a área elétrica não começou a partir de um plano de abrir uma empresa. Na época, ele trabalhava em uma indústria que enfrentava dificuldades recorrentes para encontrar assistência técnica especializada na região.

Quando uma ferramenta ou equipamento apresentava defeito, era comum depender da vinda de profissionais de outras localidades ou precisar enviar o material para outra cidade. Segundo ele, a espera pelo reparo podia chegar a 10 ou 15 dias, mantendo equipamentos parados e interferindo no andamento das atividades da empresa. 

Foi a necessidade de encontrar uma solução para o próprio ambiente de trabalho que despertou seu interesse pela elétrica. “Foi então que surgiu em mim a vontade de buscar conhecimento na área elétrica, justamente para que pudéssemos realizar essas manutenções dentro da própria indústria, sem depender constantemente de mão de obra externa”, conta. 

Genesis levou a ideia ao supervisor e os dois começaram a procurar alternativas para que ele pudesse se capacitar. A busca os levou ao SENAI. Inicialmente, o objetivo era adquirir conhecimento suficiente para atender às necessidades da empresa e reduzir o período de paralisação dos equipamentos. A experiência, porém, despertou nele um interesse cada vez maior pela profissão. 

Da qualificação ao primeiro negócio

À medida que se profissionalizava, Genesis passou a realizar os reparos necessários dentro da indústria. O trabalho começou a ser conhecido também fora dela. Outras empresas passaram a procurá-lo e a demanda reforçou algo que ele já havia percebido: existia espaço em Araguaína e região para serviços especializados de manutenção. 

Transformar essa percepção em uma empresa, no entanto, exigia uma decisão difícil. De um lado estava o desejo de empreender; do outro, a segurança de uma renda estável.

A oportunidade ganhou força quando descobriu que a irmã compartilhava o mesmo desejo de ter o próprio negócio. Hoje sócios, os dois decidiram unir recursos e projetos. A proposta foi combinar a assistência técnica, área na qual Genesis já vinha adquirindo experiência, com a comercialização de ferramentas. Assim nasceu a Genesis Ferramentas e Assistência Técnica. 

O conhecimento técnico foi, portanto, não apenas uma ferramenta para executar uma nova função, mas a base para identificar uma necessidade do mercado e transformá-la em atividade empresarial.

Carro vendido e empresa aberta durante a pandemia

A decisão de empreender veio acompanhada de sacrifícios. Genesis lembra que o primeiro grande obstáculo foi financeiro. Para reunir o capital necessário para abrir a empresa, vendeu o próprio carro e abriu mão de outros bens e planos pessoais. 

Também não houve uma transição imediata entre emprego e empreendedorismo. Durante parte desse período, ele conciliou três frentes: continuava trabalhando em outra empresa, estudava no SENAI e começava a estruturar o próprio negócio. “Era aquela correria: trabalhava, estudava e, ao mesmo tempo, estava começando a cuidar da empresa. Foi um período bem puxado”, recorda. 

O cenário se tornou ainda mais desafiador porque a abertura ocorreu em meio à pandemia, período marcado por incertezas para empresas de diferentes segmentos. Mesmo assim, Genesis e a irmã decidiram seguir com o projeto. “Apesar de tudo isso, a gente tinha muita vontade de fazer dar certo”, afirma.  

Conhecimento que saiu da sala de aula e chegou à empresa

Hoje, Genesis avalia que os conhecimentos adquiridos no SENAI permanecem presentes na rotina da empresa. Para ele, a contribuição da formação não se restringiu à execução das manutenções. O aprendizado também repercute na maneira como administra o negócio e conduz a equipe. “Todo o conhecimento que adquiri no SENAI aplico hoje na minha empresa, tanto na parte técnica das manutenções quanto na gestão do negócio e da equipe. A formação vai muito além da prática, preparando também para lidar com colaboradores e administrar uma empresa”, relata. 

A relação com a educação profissional ganhou uma nova perspectiva depois que Genesis passou da condição de trabalhador para a de empregador. Atualmente, ele afirma valorizar a formação técnica também nos processos de composição da equipe da empresa. “Hoje, inclusive, valorizamos muito os profissionais formados pelo SENAI e buscamos trazer esses colaboradores para a nossa equipe, porque conhecemos a qualidade da formação que eles recebem”, diz. 

Qualificação ainda é desafio para o setor

A experiência como empresário também fez Genesis perceber uma dificuldade que permanece no segmento: encontrar mão de obra especializada em manutenção de ferramentas e equipamentos elétricos.

Por isso, mais do que procurar um profissional que chegue completamente preparado, ele afirma observar características como interesse, dedicação e disposição para aprender. A própria empresa participa desse desenvolvimento, ensinando procedimentos de manutenção e a forma de atendimento aos clientes, enquanto incentiva os colaboradores a buscarem qualificação técnica. 

A atualização constante, segundo o empresário, tornou-se ainda mais importante diante da evolução das tecnologias utilizadas no setor. “Novos equipamentos e tecnologias estão surgindo o tempo todo. Precisamos estar sempre aprendendo e preparados para acompanhar essas mudanças e atender bem às necessidades dos nossos clientes”, destaca. 

A trajetória que começou com uma ferramenta parada dentro de uma indústria chega, assim, a uma nova etapa. O profissional que buscou capacitação para solucionar um problema no próprio trabalho passou a prestar serviços para outras empresas, tornou-se empreendedor e hoje também participa da formação prática de novos trabalhadores.

Para quem está começando uma carreira técnica ou pensa em transformar conhecimento em negócio, Genesis resume a experiência em dois pontos: preparação e persistência.

“Busque conhecimento, estude e procure saber realmente qual área você quer seguir. Nunca pare de aprender, porque o conhecimento faz muita diferença”, aconselha. E completa: “Se você tem um sonho, vá atrás, trabalhe duro, busque conhecimento e faça acontecer. Às vezes vão aparecer dificuldades no caminho, mas o importante é não desistir.”

Brener Nunes

Repórter

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins