Fraudes, Fakes e Violência

Crônica de uma tragédia anunciada

Por Marco Aurélio Jacob

Hoje é um dos dias mais importantes da história do Brasil no século XXI. Não será a última grande luta, nem a primeira grande vitória. Um lado vencerá o outro nas urnas. Mas, independentemente do resultado, todos precisamos exercer a cidadania e ter assegurado o direito de votar.

Esse voto, esse direito, foi duramente castigado ao longo da nossa história. Durante muito tempo, sequer esteve ao alcance da maioria.

Período Colonial

Da Colônia ao Império, da proclamação militar da República aos governos dos marechais Deodoro e Floriano, passando pelos coronéis que deram sequência à história política deste país, o poder sempre encontrou maneiras de escolher quem poderia participar.

Voto de homem. Voto de quem tinha renda. Voto de cabresto. Voto sob ameaça.

Quantas mazelas atravessamos para que hoje o voto pudesse ser livre, individual, secreto e acessível em todas as localidades do Brasil?

O jogo político usa muitas das mesmas regras do mercado para permanecer no poder e eliminar a concorrência. Uma expressão que li recentemente traduz bem esse mecanismo: “chutar a escada”.

Na imagem que me interessa aqui, a técnica consiste em identificar quem está crescendo, perceber uma ameaça e derrubar a escada antes que o concorrente alcance o mesmo lugar.

Uma denúncia fabricada, uma fiscalização seletiva, uma sabotagem, alguém infiltrado para criar situações vexatórias. Existem muitas maneiras de derrubar quem tenta subir.

Nas eleições presidenciais de 2022, vimos a máquina do Estado sob o governo Bolsonaro realizar operações da Polícia Rodoviária Federal que atingiram o deslocamento de eleitores. Barreiras, abordagens, fiscalização de ônibus. O Nordeste, onde Lula tinha votação expressiva, concentrou quase metade dos ônibus fiscalizados no segundo turno. (agenciabrasil.ebc.com.br)

A estrada para a urna também virou campo de disputa.

Desta vez, esse grupo não está mais à frente da Presidência. Mas continua com estrutura, recursos e articulações para tentar tirar do cargo aquele reconhecido internacionalmente como um dos maiores estadistas que o mundo já viu e o maior da história deste país.

Lula nunca será unanimidade. Sua origem não tem o mesmo pedigree dos filhos e netos das antigas castas escravocratas. E esse legado, ainda enraizado no solo brasileiro, continua alimentando grupos que se perpetuam em prefeituras, governos e casas legislativas.

Familiocracia. Nepotismo. Jogos de poder. Esposas assumindo o lugar de maridos cassados por corrupção. Filhos eleitos, irmãos, sobrinhos, netos, noras. Todos querendo um bocadinho de poder.

O parentesco não torna ninguém incapaz. Mas a transformação do cargo público em herança familiar deveria nos incomodar muito mais. Esses grupos dispõem de recursos para contratar equipes, ampliar sua presença e fazer valer o poder econômico. Um poder que substituiu os antigos títulos de nobreza: duques, viscondes, barões e reis.

Hoje, a coroa é o tamanho da conta bancária.

A estratégia depende, sim, de planejamento. Depende de marketing político bem-feito. Mas também pode explorar a falta de informação e as dificuldades de formação crítica da população.

De um lado, temos aqueles que foram beneficiados pelos programas sociais do PT e de Lula. Conquistas que ultrapassam um partido e se tornam patrimônio popular, bolsa família, pró-uni, mais médicos, compra direta de alimentos…

Esses votos de agradecimento não tem preço, não tem mudança! Tem firmeza e tem honra!

De outro há quem tenha outras realidades, outra classe social, ou privilégios e outras formas de ver o mundo. E essa diversidade ajuda a enriquecer o arcabouço cultural, político e social deste país.

A oposição, a divergência e a contrariedade são necessárias. A possibilidade de alternância no poder também. O equilíbrio democrático exige fiscalização.

Uma oposição eficaz é o fiscal de que todos precisamos, em qualquer administração pública, da esfera municipal à federal. Um bom vereador ou deputado é um grande “advogado do povo” e da região pela qual foi eleito.

Esse equilíbrio e essa “defesa” vale para territórios, setores profissionais e grupos sociais. Mas romper a barreira do dinheiro no financiamento eleitoral continua sendo a grande ameaça à real democracia brasileira.

No Império, a exigência era explícita: para disputar determinados cargos, era preciso comprovar renda. (A Constituição de 1824 exigia renda anual de 400 mil-réis para deputados e de 800 mil-réis para senadores.) (labhstc.paginas.ufsc.br)

Hoje, essa barreira aparece na contratação da equipe maior, na produção mais cara, com camisetas coloridas, outdoors, adesivos nos carros, na publicidade bem feita, nos deslocamentos com a farra dos combustíveis e principalmente nas articulações políticas.

Uma pessoa comum pode colocar seu nome à disposição. Mas conseguir disputar em condições minimamente equilibradas é outra história. A concorrência pode ser tão desleal que a pessoa humilde sequer tem tempo de posicionar a escada.

E foi contra esse sistema, enraizado e articulado há séculos, que surgiu um nordestino chamado Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de três eleições presidenciais perdidas e de muitas decepções, uma parte decisiva do povo percebeu que uma campanha bonita não bastava. A hora da alternativa havia chegado.

Era 2002

Nos anos seguintes, as transformações brasileiras chamaram a atenção do mundo. A inclusão social, o acesso às oportunidades e o fortalecimento do mercado interno passaram a fazer parte da vida de milhões de pessoas.

Em 2008, quebra da bolsa de Nova Iorque e a crise imobiliária dos Estados Unidos abalou o sistema financeiro internacional. O Brasil enfrentou seus efeitos e voltou a crescer. O IBGE registrou baixa retração econômica que foi rapidamente superada. (agenciadenoticias.ibge.gov.br)

Os investimentos em petróleo, em infraestrutura, as grandes empreiteiras prestando serviços na África na América Latina na América Central começaram a despertar atenção dos Estados Unidos que viram no Brasil uma grande ameaça ao eixo do Pacífico e das Américas.

A soberba e o alerta estadunidense encontrou uma estratégia recrutando um juiz brasileiro e, no mesmo método de frequentemente comparado à operação italiana Mãos Limpas da caça a máfia italiana conseguiu, através da operação lava jato, tirar o Lula do páreo de uma terceira reeleição anos após a sua sucessora de uma ter sido caçada.

Os detalhes dessas operações de Sergio Moro, todos conhecem e também suspeitam de que foi em troca do cargo de Ministério da Justiça, que poderia ser do Supremo, mas não foi por não concordar com os extremismos da família Bolsonaro e da proteção do próprio filho no caso das rachadinhas e do outro filho no caso do gabinete do ódio.

Lula ficou fora da eleição de 2018, depois de Dilma Rousseff ter sido afastada da Presidência pelo impeachment de 2016.

Para mim, essa passagem comprometeu ainda mais a credibilidade da separação entre julgamento e interesse político. E há decisões judiciais que precisam fazer parte dessa memória. (Em 2021, o STF confirmou a anulação das condenações por incompetência da Justiça Federal de Curitiba e reconheceu a suspeição de Moro no processo do triplex.) (portal.stf.jus.br, portal.stf.jus.br)

Combater a corrupção é necessário. Usar esse combate para escolher quem pode disputar o poder é uma ameaça à própria democracia.

Muitas são as ferramentas políticas utilizadas pelos extremistas para conquistar e conservar o poder. Algumas lembram técnicas autoritárias presentes em regimes de diferentes orientações: perseguição aos adversários, culto ao líder e concentração das decisões.

Sistemas que acabam se parecendo com reinados e impérios, controlados por uma pessoa e pelos interesses que a sustentam.

Há setores econômicos dispostos a fazer de tudo para preservar seus privilégios, independentemente das consequências. E, em certos casos, não se trata apenas de permanecer no poder.

Trata-se de enriquecer no poder. O máximo. O mais rápido possível.

A publicidade conhece bem a força da identificação. Existem pessoas que se tornam defensoras de uma marca: fiéis, leais, dispostas a defendê-la espontaneamente.

Na política, essa ligação pode ir ainda mais longe. A escolha passa a fazer parte da identidade. O eleitor já não avalia cada atitude; encontra uma justificativa para qualquer atitude.

Isso ajuda a compreender por que certas mentiras continuam circulando mesmo depois de desmentidas.

Se a pessoa já tem simpatia pelo candidato, já decidiu o voto e já sente rejeição pelo adversário, pode encontrar maneiras de acreditar. Ou simplesmente construir uma explicação que torne aquela narrativa aceitável dentro da própria cabeça.

Por isso, a técnica de uso de Fakes, e repetir essas mentiras pode continuar sendo politicamente útil.

Os seguidores já estão mobilizados. Já assumiram a defesa. Já enxergam no candidato uma representação de si mesmos, ainda que nem todos os valores coincidam. E para ele pouco importa se é verdade ou não, já não é mais isso que está em jogo, e sim o posicionamento político.

E ter o mesmo inimigo pode ser suficiente.

O inimigo comum oferece pertencimento. Faz a pessoa se sentir parte de algo maior, útil numa luta que considera correta. Ela pode acreditar que está defendendo a democracia enquanto aceita práticas que a enfraquecem.

Até os indicadores passam a ser contestados quando contrariam a escolha. É nesse ambiente que as dificuldades de acesso ao voto precisam ser observadas com toda a atenção.

A fraude dessas eleições não será esquecida: trocar zonas eleitorais locais de votação de eleitores sem avisar antes (pelo menos no 1º turno) é uma jogada muito suja pra tentar impedir que as pessoas votem. Reduzir 4000 urnas em uma região com poucos locais de votação com locais que precisam inclusive de transporte pra longos distâncias. É uma segunda estratégia de desistir pelo cansaço de aguardar mais de 4h00 numa fila pra que pra poder votar. Outra estratégia é tirar o reconhecimento facial a foto e o acesso das pessoas normais para que possam utilizar o aplicativo e-Título.

Se há filas excessivas, falta de transporte ou comunicação insuficiente, precisamos cobrar providências. Se há indícios de ação deliberada para impedir o voto, precisamos exigir investigação e responsabilização.

Votar não pode virar uma prova de resistência.

O mesmo vale para as dificuldades com o e-Título. A tecnologia precisa facilitar a vida, e suas limitações devem ser explicadas. (O aplicativo não é obrigatório: quem está com a situação eleitoral regular pode votar apresentando documento oficial com foto.) (tse.jus.br)

Há, ainda, o poder das BIG TECHs na disputa política. Facebook, Instagram, X e outras plataformas digitais participam diretamente da circulação de mensagens, vídeos e anúncios eleitorais. Seus algoritmos podem ampliar determinados conteúdos, enquanto suas regras de moderação podem limitar ou remover outros.

Por isso, alegações sobre manipulação, uso coordenado de contas falsas, fazendas de cliques (como a do Fernando Cerimedo, aliado de Eduardo Bolsonaro, que foi preso na Colômbia por tentativa de feminicídio e descobriram por acaso essa “Fazenda de Bots” ou “Farm” para multiplicar informações falsas e se relacionar com pessoas reais para campanhas de fakes, com desinformação, ataques a perfis discordantes e propagação de ódio.) Todas estas acusações precisam ser examinadas com base em dados verificáveis, relatórios técnicos e investigações independentes.

A concentração desse poder em poucas empresas exige transparência sobre critérios de distribuição, publicidade política, moderação e alcance das publicações. Sem evidências específicas, porém, não se deve transformar suspeitas sobre favorecimento ou fraude em fatos comprovados.

Quem controla a visibilidade nas plataformas digitais participa, em alguma medida, da disputa pela atenção e pelo poder.

Aí vêm as igrejas, os templos e a transformação da fé em trincheira eleitoral. Até ataques à Padroeira pode acabar sendo arrastada para essa guerra.

Quando a disputa alcança a intimidação religiosa, as ameaças contra universidades e a hostilidade contra quem simplesmente veste vermelho, alguma coisa muito séria já se rompeu.

Nenhuma preferência eleitoral autoriza a violência.

Esta eleição de 2026 é uma guerra pelas mentes, pela interpretação dos fatos e pelo futuro de um país de enorme importância internacional e riquezas que interessam ao neocolonialismo.

De um lado, a trajetória de um representante popular nordestino, que veio das bases, sem sobrenome corporativo, sem sobrenome de coronel, sem herança familiar e sem berço de ouro.

Do outro, a força de setores historicamente dominantes e daqueles que desejam pertencer a essa classe, muitas vezes sem perceber que a promessa de ascensão também pode servir para conservar a estrutura que os exclui. E infelizmente aqueles que querem acender a esta classe não sabem que não vão conseguir.

Isso não torna todos os eleitores iguais dentro de cada campo. Cada pessoa carrega sua história, suas necessidades e suas razões.

A esperança existe dos dois lados.

Mas nenhuma esperança deveria precisar do ódio para sobreviver. Nenhum projeto deveria depender da ameaça, da mentira ou da violência para vencer.

Fraudes precisam ser demonstradas e combatidas. Mentiras precisam ser desmentidas. A violência precisa encontrar responsabilização.

E o direito ao voto precisa valer para todos.

Nunca foram tão necessários o bom senso e a coerência.

Esses dois chás podem ser tomados frios, quentes ou mornos.

Mas, de preferência, todos os dias.

Foto Marco Jacob 2023
Marco Jacob

Diretor Geral, COO, CFO e Colunista.

Marco Aurélio Jacob cursou Comunicação Social - Publicidade e Propaganda (UP - Curitiba), especializado em Comunicação e Semiótica pela PUC-PR e Cultura e Antropologia pela UFT. Produtor Cultural, atuou como professor universitário e tem publicações no Brasil e no exterior. Atua nas áreas de Web, Cinema, Rádio e Televisão.

Marco Aurélio Jacob cursou Comunicação Social - Publicidade e Propaganda (UP - Curitiba), especializado em Comunicação e Semiótica pela PUC-PR e Cultura e Antropologia pela UFT. Produtor Cultural, atuou como professor universitário e tem publicações no Brasil e no exterior. Atua nas áreas de Web, Cinema, Rádio e Televisão.